sexta-feira, 26 de abril de 2013

O conto do velho Cosme (parte 1)

O velho Cosme
Pelos idos de 1930, vivia, numa pacata cidade do sul do São Paulo, um velho que respondia por Cosme. Ele trabalhava para um grande senhor de engenho, e ganhava relativamente bem, pro padrão da época. De vez em quando, zombava dos escravos, atirando sal em suas feridas. Nunca havia pisado numa escola, e referia-se a ela como "a casa do desperdício". Costumava indagar ao vento: "Já pensou se todas essas crianças estivessem trabalhando, pegando numa enxada, ao invés de estarem na escola? O país seria outro".

Um de seus hábitos era fazer grandes passeios montado num cavalo. Ele descia todo o rio que passava pela fazenda, e depois ia até a fronteira do estado. Cada dia ele explorava lugares novos, e sempre estendia a sua viagem por um quilômetro a mais semanalmente. Até que chegou o dia em que ele se perdeu. Caía uma chuva gigantesca e ele estava bem longe da fazenda. Então, Cosme pensou: "vou dormir aqui por um tempo, até que a chuva passe". Amarrando o seu cavalo numa árvore, sentou-se no caule dela, tentando dormir. O sono enfim chegou e ele apagou.

Quando acordou, já era de manhã, e o seu cavalo já não estava mais lá. Ele então berrou: "quem foi o maldito que roubou meu cavalo?". Depois de um longo silêncio, o velho começou a caminhar pelas redondezas. Andou tanto que atingiu uma vila, que, à primeira vista, parecia bem arrumada. Ele foi logo falar com um cidadão, a fim de saber a sua localização. O homem a quem abordara não era tão receptivo, e disse não saber responder o que ele perguntava: "eu nunca saí dessa vila", disse o senhor.

Então, Cosme andou até o centro da cidade, onde encontrou um rapaz que aparentava ter seus 25 anos, e que notou a cara de aflição dele. O moço perguntou:

- O que houve, senhor? Você está com a cara tão abatida.

Então, o velho disse:

- Nada, meu filho, eu apenas quero voltar pra casa. Eu me perdi e vim parar aqui.

O rapaz se apresentou como César, e disse que iria ver o que podia fazer. De repente, apareceram mais duas pessoas, um casal de amigos. A mulher, de nome Alessandra, tinha a pele morena e era dona de muita beleza. O homem, de nome Guido, era alto e magro. Eles chegaram perto do amigo e perguntaram quem era o indivíduo. César respondeu:

- É um senhor que está perdido. Vamos tentar ajudá-lo?

Ambos concordaram, e foram até o celeiro buscar seus cavalos. Quando lá chegaram, Cosme reconheceu o seu cavalo:

- É aquele, branco! O meu fiel companheiro!.

Então, ao se aproximar do bicho, viu um negro se levantar com uma pistola. Ele indagou:

- Foi você o desgraçado que roubou meu cavalo?
- Depende de qual for. - o negro respondeu
- Não se faça de bobo, é claro que é esse aqui.
- Desgraçado e bobo, você dirigiu esses insultos a mim. Mas o bobo é você, que dormiu na chuva sem medo de ter o cavalo roubado.
- Então foi você mesmo. - retrucou o velho.

O negro que roubou o cavalo do senhor
E foi assim que os dois tiraram de suas cinturas e apontaram, um para o outro, revólveres potentes. Então, Guido falou:
- Não façam isso, a violência é a pior forma de se resolver algo. Façam um trato entre si.

Os dois, depois de pensarem um pouco, concordaram e foram conversar num local afastado, enquanto o trio ficou esperando no celeiro. Depois, ambos foram de encontro a eles, e o velho disse: "chegamos a um acordo. Nós vamos juntos até a minha cidade pra eu comprar um cavalo caro pra esse infeliz. Aí ele devolve o meu xodó".

Passado isso, os cinco subiram em seus cavalos e foram até a cidade de Cosme. Durante o trajeto, perceberam o andar dos cavalos e aquele frescor do pós-chuva. Estavam conversando quando, de repente foram abordados por um ladrão.

- Há três dias que eu não como nem um pedaço de pão - disse o homem.
- Pois nós estamos sem um tostão - retrucou o velho - você vai é se dar mal assaltando desse jeito.
- Não fale assim, porque eu estou armado.
- Nós também, quer nos confrontar? - disse o negro.

Então, o ladrão foi se afastando e conseguiu disparar três tiros contra eles, antes de o negro conseguir acertá-lo. Todos riram por um instante do ladrão. Só que, ao olharem para Guido, perceberam que ele estava muito ferido. Então decidiram seguir viagem o mais rápido possível, levando o amigo no cavalo de Cosme.

Ao chegarem na cidade, foram logo ao centro. Quando já avistava a sua casa, num beco escuro, o negro aproveitou o pouco movimento da rua pra fazer todos de reféns. Ele os amarrou a um poste, pegou a arma de Cosme e todos os cavalos, e partiu de volta à vila. O velho então falou: "que homem ordinário. Não quis nem cumprir o trato". Então, ficaram amarrados por cinco horas até que um senhor passou e os desamarrou. O cidadão era um delegado e, percebendo que um deles estava bastante ferido, começou a perguntar o que tinha acontecido.

Depois de ter sabido da história, o delegado prometeu a captura do tal negro e, para isso, acionou toda a guarda local para partir rumo à vila. O grupo então foi ao hospital, para deixarem o Guido, e depois para a casa de Cosme. Ao entrarem, elogiaram a casa, dizendo que era muito bem decorada. O velho então mostrou os quartos em que iriam dormir e deu boa noite a todos.

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